20070401


chego então a uma cidade dividida no tempo.
no passado havia uma cidade desértica, suas casas construídas com blocos de pedra.
seus habitantes eram letrados, catedráticos, profundos estudiosos, cientistas,
engenheiros, biólogos, psicólogos, sempre envolvidos em debates intermináveis sobre as grandes questões.
mas no futuro um bosque toma conta de todo o deserto, e alguns poucos vestígios das antigas casas restam destruídos em volta das árvores.
os únicos moradores que posso avistar parecem mesclados com os animais, ostentando asas, chifres, rabos, cascos.
nenhuma comunicação com eles é possível para desvendar o mistério dessa transformação.
nem com os cientistas do passado, envolvidos em intermináveis conferências,
e nem com os seres animalescos do futuro, por total ausência de linguagem.
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20070330
cadernos de cidades
durmi em uma das tendas leves daquela cidade nômade, feita de rotas.
uma cidade feita de mapas, de caminhos a serem percorridos,
e povoada pelos colecionadores de lembrança: sempre preenchendo cadernos com a descrição dos lugares por onde ela já havia passado. 
e quando acordei a cidade já havia partido.
fiquei apenas com este meu caderno, estas minhas memórias.
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20070324
a cidade das multidões recolhidas
nessa cidade cada pessoa tem o seu próprio espaço, reservado.
todo mundo vive sozinho e evita ao máximo o contato com outras pessoas.
as entradas e saídas dos prédios são monitoradas em sistemas de vídeo acessíveis a todos, a fim de minimizar o risco de encontros fortuitos nas escadarias, nos corredores.
para se comunicarem as pessoas escrevem bilhetes, deixam tudo anotado uns para os outros, quase nunca se encontram.
quando um cliente entra em uma loja os vendedores se retiram, deixando um bloco de anotações. o cliente escreve o seu pedido e vai embora. a compra é entregue em frente à sua porta e o cliente passa um envelope com o pagamento por baixo da porta.
ninguém se encontra quase nunca, mas um dia por ano, no entanto, as pessoas participam de um grande festival onde todos se encontram, conversam, bebem, transam, falam, cantam, interagem enfim de todas as formas possíveis.
para no dia seguinte voltarem todos à solidão voluntária habitual.
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20070315
a cidade das pessoas imortais
nesta cidade as pessoas aprenderam a fórmula da imortalidade.
elas descobriram que cada pessoa traz consigo uma fonte, que brota sempre.
a intensidade dela varia muito mas a fonte nunca para de jorrar, de dentro.
para atingir a imortalidade, cada pessoa deve sempre oferecer ao outro a água que brota de si.
bebendo da fonte alheia, cada um se transforma um pouco no outro, que por sua vez também já se transformou em outro, e assim é com todos.
nesta cidade, as pessoas estão sempre sendo libertas de si mesmas por vontade própria.
e somente desta forma, transformando-se sempre, atingem a imortalidade.
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20070227
tristan und isolde na terra de nun-k
Nesta cidade as pessoas nunca encontram-se pessoalmente. Todos moram muito longe uns dos outros. E quanto mais as pessoas se gostam, mais longe elas estão localizadas geograficamente.
Isso obrigou a cidade a desenvolver um complexo e eficiente sistema remoto de comunicação. Obrigou também às pessoas desenvolverem extrema sensibilidade que levou, por fim, ao advento da telepatia.
O que acabou finalmente com todas as distâncias, pois todos passaram a se encontrar em agradáveis lugares imaginários compartilhados.
A Igreja ficava sempre vazia, porque era muito longe.
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20070213
phillipe e a cidade dupla
nesta cidade são todos sonâmbulos,
e as pessoas só saem de casa para encontrarem os amigos quando estão dormindo.
todos os encontros, todas as conversas, todos os amores
só acontecem quando estão todos dormindo e sonhando por aí.
de dia todos morrem de tédio em seus trabalhinhos rotineiros e sua vidinhas medíocres.
mas de noite, enquanto sonham
tudo acontece!
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20070202
nesta cidade depois de um longo tempo de buscas, grandes investigações e discussões profundas
as pessoas chegaram, enfim, à Verdade
e terminaram por ficarem todos em silêncio,
pois não tinham nada mais a dizer um para o outro
(a Verdade era uma só, e todos já sabiam)
até que um belo dia, antes que o Tédio se impusesse de forma irreversível,
um ilusionista, um mágico, um estrangeiro
chegou naquela cidade e ensinou todo povo de lá a mentir
e todos ficaram felizes
pois puderam de novo
voltar a se divertir
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20060831
20060809
atreiú e a cidade das distâncias
nesta cidade todas as coisas vão afastando-se aos poucos, alguns pequenos micro mili ímetros por dia e ninguém percebe mas devagar tudo vai ficando mais distante, a cidade se expande os átomos e os quarks se expandem o mínimo da matéria em expansão tudo em expansão só que bem aos poucos no mínimo contínuo
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20060623
uma cidade incompleta
nesta cidade aqui as pessoas se identificam com um coletivo
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20060610
o agente smith na cidade contida
nesta cidade estão todos sempre anestesiados. as pessoas estão sempre rodeadas de prazeres, asfixiadas por eles. vivem felizes, mas presas: vivem dentro da anestesia, não conhecem outro mundo além da anestesia.
e nem querem conhecer, o prazer basta para eles lá.
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20060607
nesta cidade estão todos sempre anestesiados. as pessoas estão sempre rodeadas de prazeres, asfixiadas por eles. vivem felizes, mas presas: vivem dentro da anestesia, não conhecem o mundo que está do lado de fora.
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20060604
nesta cidade todos são sempre dispostos a fazerem amigos.
não importa quem sejam eles, a cada amigo feito uma nova troca de cartões: um cartãozinho novo para a coleção e uma pessoa a mais para dar os parabéns durante o ano.
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Mas de volta para onde? Durante esses anos todos de construção cresceu uma nova geração que sequer sabia dos planos originais. Dos velhos, que haviam concebido o plano, muitos já tinham morrido e os que restavam tinham se isolado dos mais novos. Todo o impulso construtivo, todo o desejo de mudança de suas juventudes havia sumido. Eles agora contentavam-se em acompanhar o progresso do alto de suas torres. A construção do barco havia se tornado o mais importante, movimentado a todos e agora que ela chegava ao fim, o que fazer?

Porque depois de tanto tempo esperando, eles nem lembravam mais para onde iam quando tudo começou.
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20060517
para preservar sua arquitetura de gerações, para preservar a própria alma da cidade esculpida nas pedras de seus lugares
resolveram transferir os edifícios, as ruas, as casas,
transferiram a cidade inteira para outro terreno

levaram a cidade para o fundo do mar

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20060512
sem que ninguém perceba, as coisas vão sumindo,
somem os objetos depois somem as pessoas, e
vão sumindo aos poucos, todas as pessoas

ficam apenas as construções e os espaços
que depois se consomem também
dentro do caldo da entropia
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20060503
Essa cidade foi totalmente dominada pelas máquinas. As ruas são tomadas pelos automóveis que obedecem rigorosamente o ritmo dos sinais de trânsito controlados por um programa alojado em um computador alimentado pela energia que chega de uma usina onde os poucos trabalhadores humanos apenas fiscalizam o bom funcionamento das máquinas. Para se divertirem as pessoas vão ao cinema e compram os ingressos em quiosques informatizados, depositando-os depois em catracas eletrônicas e vão sentar-se em seus lugares previamente marcados. As sessões começam no horário exato, e as pessoas riem ou choram todos ao mesmo tempo de acordo com as ações do personagens na tela.
O verdadeiro espírito desta cidade é uma entidade abstrata chamada de 画因. Ela é representada por um cartão plástico que todos possuem. Todos passam os dias trocando os seus 画因 uns com os outros, e adquirindo mais 画因 em troca da quantidade de vezes que interagem com determinadas máquinas chamadas de 稼ぐ. O 画因 só tem importância se estiver em movimento, sendo trocado, passando de uma pessoa para outra em um processo sem fim. as pessoas existem apenas para interagirem com as 稼ぐ e manter o movimento do 画因.
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20060425
O verdadeiro espírito desta cidade é uma entidade abstrata chamada de 画因. Ela é representada por um cartão plástico que todos possuem. Elas passam os dias trocando os seus 画因 uns com os outros, e adquirindo mais 画因 em troca da quantidade de vezes que interagem com determinadas máquinas chamadas de 稼ぐ. O 画因 só tem importância se estiver em movimento, sendo trocado, passando de uma pessoa para outra em um processo sem fim. as pessoas existem apenas para interagirem com as 稼ぐ e manter o movimento do 画因.
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20060420
"Esta foi uma cidade que me causou um sentimento um tanto ambíguo", disse Marco Polo ao grande Khan, "pois nela as pessoas pareciam felizes em sua desgraça."
E continuou narrando ao Khan as características daquela cidade perdida:
Nesta cidade as pessoas não possuem memória. Elas vivem em um presente eterno. Não existem distinções de classes e nem tampouco existem posses individuais e nem coletivas. Quando sentem fome elas vão em busca de comida como se fossem animais selvagens, geralmente em bandos. Elas também não possuem um idioma, se comunicando com grunhidos e gestos óbvios. Mas apesar disso é uma cidade com grandes construções, imensos palácios e jardins. Em algum momento da história desse povo um grande cataclisma psicológico deve ter acontecido e todos se igualaram no vazio. O que teria acontecido?
A maior parte do tempo eles simplesmente existem: andam em bando, ou em casais, e estão sempre se acariciando, se beijando, se tocando, sempre cuidando um do corpo do outro. Talvez esta seja a única linguagem que eles possuem: a das trocas físicas, corpóreas.
E apesar da ausência de memórias, ou talvez apenas por isso, é uma cidade que vive em paz.
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20060419
Nesta cidade as pessoas nascem sem rosto. Nada as distingue umas das outras e por isso todo mundo usa máscaras. Os bebês ficam sem rosto até que aprendam a falar. Neste dia eles mesmos escolhem para si uma máscara e passam a se identificar com ela.
De início as pessoas se contentavam em ter apenas um rosto para si, mas então surgiram grupos de jovens (sempre eles!) que começaram a trocar de máscaras entre si.
Foram rejeitados pelas famílias e amaldiçoados pela Igreja.
Mas com o passar do tempo apareceu na grande praça, no centro, uma feira onde os habitantes podiam trocar de máscaras uns com os outros. E semana a semana a feira cresceu e todos os habitantes, até os padres, passaram a frequentá-la.
E agora todo domingo eles vão para o centro para mudar de rosto e apesar de voltarem para casa sempre diferentes, todos continuam exatamente iguais.
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